Os meus benefícios com o Implante Coclear Bilateral

Hoje, dia 8 de julho – meu aniversário, publico novamente o texto referente aos meus ganhos auditivos com o segundo implante coclear. Alegria maior é nascer de novo, conquistar este mundo sonoro, ouvindo o canto de um bem-te vi que vem de longe, mansinho, alegrando as manhãs e o dia que está começando.

;)

A minha escolha pelo Implante Coclear Bilateral foi mais difícil do que a própria cirurgia. Eu vinha conversando com a minha família,  com otorrinolaringologistas, fonoaudiólogas, amigos e  também pesquisava diuturnamente na Internet acerca da segunda cirurgia.

Em janeiro de 2006 eu fiz a primeira cirurgia de IC, em meu ouvido esquerdo. Mas qual poderia ser o grande e real benefício em receber a segunda prótese?

Antes de entrar nos benefícios, quero ressaltar que cada usuário de implante coclear é único, tal qual a sua impressão digital. Jamais encontraremos uma similaridade entre os usuários, considerando ainda que há fatores determinantes para o resultado da discriminação sonora, tais como: tempo de privação auditiva, a característica do usuário pré-lingual e do pós-lingual e a causa da surdez (meningite viral ou bacteriana, otosclerose, trauma no ouvido interno, entre outros).

O meu primeiro benefício em relação ao IC bilateral foi aquele relacionado à localização sonora, que vem melhorando a cada mapeamento. A minha fonoaudióloga já integrou através do software, na sessão de mapeamento, os dois lados, com o balanceamento bilateral. Por isso, eu começo a perceber o som estéreo, o que me ajuda a ouvir música de uma forma mais clara e a localizar a direção do som, seja a principal fonte sonora originária da direita ou da esquerda. Exemplo: a famosa campainha do elevador, quando há mais do que quatro deles, num prédio comercial ou residencial. Antes, eu quase “perdia” o elevador, pois estava olhando o meu celular, checando alguma informação e era sempre o elevador da outra ponta do lobby  que chegava primeiro. Talvez a Lei de Murphy – inexorável -  possa explicar este momento diferente e inusitado. Esta facilidade na localização, no dia a dia, faz uma diferença extraordinária. E o que dizer quando alguém  me chama à distância, pelas costas?

Já a discriminação sonora em ambientes muito ruidosos foi o meu segundo benefício.  Sabemos que em restaurantes, à hora das refeições, é tarefa difícil para um usuário de implante coclear entender o que um amigo fala, dificuldade que pode ser observada até mesmo para certos ouvintes “não biônicos”.  A leitura orofacial (LOF) tem que ser feita com muita atenção. Atualmente, continuo a usar a LOF , mas a minha “energia” em tentar compreender o meu interlocutor tem diminuído paulatinamente e eu não me canso como antes para interpretar o que está sendo dito.

O terceiro benefício apontou para a  neutralização da sombra acústica de cabeça. Voltando ao exemplo do restaurante, quando uma pessoa se senta, hoje, ao meu lado direito, é possível compreender melhor o que ela está falando, sem precisar me virar totalmente para o rosto dela, pois o som está sendo, agora,  captado também pelo outro lado, onde, até maio de 2009, não existia o implante coclear e eu só percebia o forte zumbido.

Chegamos agora ao quarto benefício, relacionado ao back up de funcionamento do processador de fala. No exato momento em que uma das baterias esgota a sua carga e o processador de fala desliga, eu tenho o segundo  lado para manter a discriminação em uma conversa, seja ao telefone,  dirigindo o meu carro ou conversando em uma reunião.

O quinto benefício foi em relação à diminuição do zumbido, um fator de grande alegria. Com o primeiro Implante Coclear isto já tinha acontecido. Com o segundo, ele diminuiu consideravelmente. Eu me lembro que, enquanto repousava no quarto do hospital, depois do segundo Implante Coclear, acordei à noite e fiquei imensamente feliz, pois senti que o zumbido deste novo lado também  tinha diminuído, numa escala de valor considerável. Antes dos Implantes, eu classificava o meu zumbido bilateral – numa escala de zero a dez -   com a nota oito. Depois dos Implantes,  o tinittus diminuiu para a nota dois. E quando estou com os dois processadores de fala ligados, eu nem percebo mais o zumbido, pois estou captando o som.

Já brinquei com um médico otorrinolaringologista, quando eu disse: “Se eu tivesse três cócleas, faria três implantes cocleares”! E já pensaram: um som em estéreo 5.1  dolby surround?

Entretanto, eu continuo batendo naquela teclinha importante: a importância da sequência dos mapeamentos, dos ajustes, dos testes e de novos mapeamentos, novos ajustes, novos testes, pois o Implante Coclear, para mim,  constitui-se em 10%  hardware e 90%  software.

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Células-tronco

 

Volta e meia escuto digital e bilateralmente entre as rodas de amigos uma conversa relacionada às células-tronco. Há também perguntas e respostas em uma variedade de fóruns pelo Brasil afora.

Recentemente, o FDA (Federal Drug Administration) – o órgão que regulamenta os procedimentos médicos nos EUA – autorizou o uso deste tratamento somente para pacientes portadores de deficiência motora. A primeira regra para o pequeno grupo de pacientes selecionados foi a condição segundo a qual todos eles poderiam se candidatar ao tratamento desde que tivessem perdido os movimentos há pouco mais de 15 dias, não mais do que isso.

Inevitável abordar este assunto sem passar pela deficiência auditiva. Com os meus implantes cocleares, ouço pais comentarem que preferem guardar a (re)habilitação auditiva de seus filhos para o futuro próximo, com as células-tronco participando diretamente no tratamento destas pessoas que nasceram surdas ou que perderam a audição progressiva ou subitamente, uni ou bilateralmente.

É importante considerar vários aspectos antes de abraçar um tratamento como este. Em primeiro lugar, fico imaginando como as células ciliadas auditivas vão se regenerar totalmente a ponto de permitir ao paciente ouvir até o canto de um bem-te-vi lá longe. Como será que isso acontece? É demorado ou pode tomar algumas semanas? O paciente primeiro vai distinguir os sons graves e depois os agudos, vice-versa ou tudo ao mesmo tempo agora?

Tantas perguntas, poucas respostas. E não é difícil pensar no risco que se corre em ter as células auditivas regeneradas com um crescimento sem controle, criando até tumores, fato observado em ratinhos de laboratório.

Segundo  Lygia Pereira, do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP, “as células-tronco são muitas vezes apresentadas como solução milagrosa para qualquer problema. Isso é sensacionalismo. As terapias realmente comprovadas ainda são muito restritas”.(*)

Outra consideração importante: regeneradas as células auditivas, como o ser humano vai “controlar” o volume, tal qual o usuário de AASI (aparelho de amplificação sonora individual) ou de implante coclear, naquela situação onde o barulho é infernal, considerando que o órgão auditivo, uma vez regenerado, estará 24 horas ligado num paciente que não ouvia absolutamente nada?

Hoje, quando vou dormir, deixo os meus dois processadores de fala dentro de um desumidificador, com sílica-gel. Durmo tranqüilo, sem a interferência de sirenes, rojões que comemoram os 100 anos de meu todo poderoso timão ou o ronco “suave” de minha querida esposa (que ela não nos ouça!). Hoje, a fonoaudióloga tem o controle absoluto de minhas necessidades auditivas para ajustar o melhor limiar sonoro, a auto-sensibilidade, o volume e outras estratégias de comunicação cibernéticas.

Guardar o tratamento para o futuro, sem estimular o nervo auditivo com alguma prótese, será benéfico? Eu que fiz as cirurgias de implante coclear bilateral sequencialmente, tendo um espaço de tempo de três anos entre o ouvido esquerdo e o direito, já senti uma diferença real na reabilitação auditiva no lado mais novo. O que dizer em pacientes que estão surdos por uma década?

Quando troco uma idéia com a minha filha caçula, eu falo que estes dois processadores de fala que uso hoje serão realmente peças de museu um dia, assim como os modelos de caixinha ou mesmo as “cornetas acústicas”. Mas isto não significa dizer que eu não posso utilizá-los atualmente, ajustando as freqüências nos mapeamentos, testando estratégias, atualizando a versão do software e estimulando diariamente meus nervos auditivos que um dia estiveram completamente adormecidos.

Não sou nenhum pesquisador, médico ou cientista para carimbar o melhor procedimento.  Não ganho bem como eles e nem sou tão inteligente quanto.

Mas…Esperar o futuro? Quando? Como?

 Observação: Quero a sua opinião, leitor(a) amigo(a). Ela é sempre importante quando se fala em tratamento auditivo por células-tronco.

(*) Trecho extraído de matéria publicada no jornal “Folha de São Paulo”, do dia 22.08.2010, na seção “Ciência”, sob o título “Cientistas atacam cura com célula-tronco”, caderno A26.

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Eu também tô doente !

 

 

Todo mundo sabe que os pais têm um instinto permanente de preservação da prole  e que, por isso, tentam proteger os filhos da melhor maneira possível.

Eu mesmo me pego às vezes aplicando esta salvaguarda, ora com a minha caçula, ora com a mais velha.

Dormi bem naquela noite, até porque eu tirei os meus processadores de fala bilaterais – para economizar as baterias. Levantei cedo, como de costume, recoloquei os processadores e, na base da inércia, comecei a preparar o café. Não foi uma tarefa sobre humana, porém repetitiva, ao sabor de bocejos e estalos dos meus ossos.

A minha velha carcaça, às vezes pede um descanso extra, mesmo após um período de vigília, sono e sonho. Ainda mais quando se está gripado, com sinusite e dor de garganta, que era o meu quadro naquele dia.

Feito o café, era chegada a hora de chamar as meninas para a mesa, pois dentro de alguns minutos elas seguiriam para a escola e deixariam o nosso cachorrinho Nino abandonado, por um determinado tempo.

Enquanto eu tomava o café, a caçula, tagarela, desandou a falar sobre todos e tudo. De repente, levei um susto com o que ela falou:

- Pai, eu também tô doente!

Parei com o último gole de café com leite, abri os olhos e fitei aquela garota uniformizada. Pela minha cabeça, passou uma rajada de idéias nada confortáveis, como, por exemplo, “ih meu Deus! Ela não vai poder ir à escola”, ou então, “acho que ela está inventando isso para ficar hoje em casa”.

Eu perguntei:

- Mas será que você está com febre?

Ela me olhou de forma estranha. Parecia que não tinha entendido o que eu falei. Silêncio total. A minha filha mais velha esboçou uma risada, mas se arrependeu.

- Mas o que é que você tem filha?

Ela falou novamente a frase, um pouco mais devagar, quando percebi que ela estava saudável e com um pouquinho só de sono:

- Pai, eu tomei todo o leite!

Pois é… Nós implantados e também os usuários de Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI) temos às vezes os nosso momentos de “a velha da praça”, aquele quadro de humor que passava há alguns anos na “Praça da Alegria”. Sem dúvida, “eu também tô doente” é muito parecido com “eu tomei todo o leite”, perceberam?

Portanto, paciência e um ritmo de fala mais lento são muito importantes quando você está falando com a gente. E não é preciso gritar, hein!

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Censo 2010

 

Acabo de receber em minha casa a visita do recenseador, aquela pessoa responsável por coletar dados importantes das pessoas que estão na residência, a fim de reunir informações para o Censo 2010.

Foi uma entrevista rápida, de aproximadamente dez minutos. Fez inúmeras perguntas, como por exemplo, se a água e a luz da residência são ligadas a rede oficial. Além disso, ele quis saber da cor de pele de cada habitante da casa, a renda das pessoas economicamente ativas e se todos sabiam ler e escrever.

Ao fim da entrevista, que foi concedida na própria calçada em frente a minha casa, ele pediu para assinar a tela de LCD (Liquid Crystal Display) do aparelhinho que coletou todas as informações.

Fiquei surpreso por um aspecto: ele não me questionou absolutamente nada sobre a existência de pessoas portadoras de deficiência na residência, seja ela visual, auditiva ou motora.

Depois de tantas perguntas, eu fiz a minha:

- Mas o senhor não perguntou se há pessoas portadoras de deficiência aqui em casa. Eu, por exemplo, sou deficiente auditivo e usuário de Implante Coclear Bilateral.

O recenseador fez uma cara de pequeno susto, mas comentou que no Censo 2010 há dois tipos de questionário: o genérico e o específico. É exatamente no questionário específico que entram as perguntas sobre os portadores de deficiência. Entretanto, este questionário específico só abre no computadorzinho dele (palmtop) aleatoriamente, ou, via de regra, de dez em dez domicílios.

Nós brasileiros saberemos, após a tabulação das respostas de tantas entrevistas, quantos somos hoje em todo o território nacional. Descobriremos que a população envelheceu, que o analfabetismo ainda não foi extinto e que a renda per capita pode ter crescido. Mas e sobre a população deficiente auditiva, visual e motora?

Desnecessário dizer – mas vou dizer – que há residências com dois ou até três deficientes. Mas a tal da pesquisa específica provavelmente não vai abrir no palmtop do recenseador, pois ela é aleatória.

Sei que um pequeno palmtop tem uma capacidade limitada de armazenamento de informações. Sei também que o sistema deve ter sido bem dimensionado para registrar as entrevistas do dia a dia do recenseador.

Mas  será que dentre tantas perguntas genéricas não poderia ser incluída apenas mais uma, sobre o tipo de deficiência de algum morador da residência?

Confesso que não me lembro exatamente como foi o Censo do ano de 2000. Provavelmente, ele deve ter sido feito em papel, pois não existia naquele ano  a intenção de se produzir o Censo com o uso de palmtop, independentemente se ele já existisse em alguma parte do mundo. Para mim, a única diferença entre o Censo 2000 e o atual foi a de que as minhas cócleas estavam positivas e operantes às vésperas do início do século XXI.

O recenseador educadamente me informou que ia levar ao Coordenador dele a minha solicitação, isto é, que ele iria verificar a possibilidade de voltar em minha residência e refazer  a entrevista, agora utilizando o questionário específico. Acho difícil, pois se refizer para um, deverá refazer para todos.

Senti aquele vazio dentro de mim e tive outra leve sensação de que a deficiência maior estava na velha fórmula de perguntas e respostas. Eu, deficiente auditivo e usuário de implante coclear bilateral, fiquei de fora das estatísticas, assim como muitos cegos e milhares de cadeirantes.

Foi tanta tecnologia, caneta de plástico que escreve na tela de LCD, crachá com foto, boné, colete de utilidades, cortesia, que deixaram de fora um dado muito importante para revelar a verdadeira tomografia computadorizada desse nosso Brasil 2010.

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Filhos surdos, pais mudos

 

Eu tive uma infância feliz. Vez ou outra, durante as férias escolares, eu corria solto no quintal de minha avó, no interior de São Paulo e tinha em meu calcanhar a marcação cerrada da Catita, uma cadelinha sem raça definida, preta e branca, inteligente e simpática, que ficava um pouco encardida daquela terra batida e vermelha, assim como os meus calcanhares. Ela só desistia da perseguição quando eu subia ofegante no pé de pitanga que existia por ali, depois de passar pela bananeira, laranjeira, abacateiro e jabuticabeira. A Catita, então, ficava com a boca aberta, sentada e eu nem sabia se ela queria também uma pitanga ou se esperava pacientemente que eu descesse pelos galhos, depois de me deliciar com aquela fruta fresquinha e saborosa. Não existia Harry Potter, só Nacional Kid.

Estou longe de dizer que na aurora de minha vida eu não aprontava das minhas e não tinha outros galhos para resolver. Na escola ou no campinho de futebol, soltando pipa ou andando de carrinho de rolimã, usando o meu estilingue ou jogando bolinha de gude,  de vez em quando eu merecia um puxão de orelha de minha mãe. Ela fazia a cinta assoviar antes do banho, sem antes praguejar com os olhos arregalados. Não fiquei nem mais triste nem mais traumatizado com esta punição nada pueril. Apenas compreendi, pouco a pouco, que havia limites.

No Brasil de hoje temos 69 milhões de crianças. Duas em cada mil nascem com deficiência auditiva. Já temos o teste da orelhinha, obrigatório em todo o território nacional, lei sancionada neste mês pelo Presidente da República. Além disso, o chefe do executivo aproveitou o embalo e enviou ao Congresso Nacional projeto de lei alterando o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que proíbe toda forma de punição violenta à criança.

Sem entrar no mérito da questão, quero falar para os pais de crianças deficientes auditivas.

Eu cresci e hoje sou um adulto barbado, tenho as minhas filhas e esposa e os limites a negociar. Entra semana e sai outra, sempre estou conversando com fonoaudiólogas, otorrinos e pediatras, tarefa obrigatória em meu ramo profissional.

Dentro dos consultórios, das cabines de audiometria ou defronte a mesa da fonoaudióloga, há um clamor retumbante, que deve ser muito bem trabalhado entre os pais de crianças com deficiência auditiva. Independentemente do recurso tecnológico escolhido para a reabilitação da criança com deficiência auditiva, seja ela o Implante Coclear, o Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI), o BAHA (para crianças acima de 5 anos) ou a prótese totalmente implantável, os pais não devem se calar perante o silêncio de seus filhos. Impor limites também significa educar.

É lógico que para a criança deficiente auditiva há sempre uma barreira a mais a ser transposta. Mas o dia a dia da convivência com os pais, a proatividade, o interesse, o esforço e a paciência podem trazer benefícios incontáveis para a educação da criança que está em reabilitação auditiva.

Há pais que ainda não sabem lidar com esta deficiência de seus filhos. Calados, gesticulam, tentam se comunicar, perdem a paciência e desistem silenciosamente da reabilitação, deixando de criar um código que permita indicar qual é o limite para aquele filho. Seja no consultório ou em casa, a criança consequentemente evita o uso do aparelho, diz que é feio, não gosta da cor, pois ainda não compreende que a surdez aparece mais do que qualquer aparelho auditivo. A bateria acaba ou sem querer a criança desliga o AASI e muitos pais acham que está tudo correndo como o combinado. Combinado?

As fonos, que no momento da consulta são ao mesmo tempo mães, gestoras, psicólogas, psicopedagogas, tias, irmãs e professoras, além de desenvolverem e praticarem o que aprenderam na vida acadêmica, tentam explicar para filhos e pais a importância da estimulação auditiva, da marcação de consultas de retorno, do uso das próteses, da manutenção preventiva e do ganho que isto vai ter para a vida toda. Autoestima e confiança são apenas duas conquistas de uma vasta lista, além da própria comunicação.

Filhos surdos e pais calados parecem duas linhas paralelas que, segundo o que aprendi ainda no ginásio (hoje chamado de ensino fundamental), não se encontram nem aqui e nem no infinito.

Neste momento me lembro claramente quando perdi a audição. Eu já era adulto, mas o apoio familiar e a compreensão complementaram o trabalho de otorrinos e fonos, que me levaram à feliz decisão do Implante Coclear Bilateral.

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Preconceito: esta é a deficiência oculta

A surdez é uma deficiência oculta. Podemos estar no cinema ou num programa de auditório, do tipo Faustão, ou ainda num estádio de futebol e, certamente, será impossível sabermos quantos surdos há neste espaço público. Na verdade, somos 4 milhões e meio em todo o Brasil, tendo algum tipo de perda auditiva, seja ela leve, moderava, profunda ou severa.

Entretanto, o que mais me chama a atenção, é outro tipo de deficiência oculta: o preconceito. Outro dia li em nosso Fórum de Implante Coclear (www.guicos.cjb.net) que uma mulher surda, usuária de IC, havia prestado concurso público. Ela corretamente optou por se inscrever na cota dos deficientes, cuja prova não é diferente das demais – é exatamente igual – e foi aprovada. Nos exames médicos de admissão ao novo emprego público, a segunda etapa de todo o processo, ela foi barrada porque, sendo surda, ouvia através do Implante Coclear. E agindo mais uma vez corretamente, ela entrou com um recurso, uma liminar, ganhou o processo para trabalhar dignamente como qualquer ser humano. Seria preciso tudo isso? Já não bastava por si só o longo processo de reabilitação auditiva pelo qual ela passou, testando softwares e comparecendo a inúmeras sessões de fonoaudiologia?

Assistindo certa vez ao final da novela “Viver a Vida”, vi o depoimento da sra. Marri, contando a história de seu filho de 3 anos, o David,  usuário de Implante Coclear. Ela chamou o seu pupilo de “troféu” e, de forma emocionada, pontuou tim tim por tim tim a vida daquele campeão. Primeiro, a mãe tinha sido desenganada por um médico, dizendo que ela não podia jamais engravidar. Segundo, o filho David, com pressa para nascer e gritar a plenos pulmões “estou aqui, nasci!”, veio a este mundo prematuramente e, entre a vida e a morte, resistiu noite e dia na UTI de um hospital, sempre amparado pelo calor das mãos de sua mãe a lhe dar carinho e proteção. E por fim, o pequeno David, com nascimento prematuro, nasceu com deficiência auditiva profunda. Ele então fez a cirurgia de Implante Coclear e começou a conhecer pela primeira vez a voz daquela sua grande progenitora.

A sra. Marri levava o David todos os dias para brincar num parquinho. Como toda criança, sempre gostosamente ingênua, alegre e descontraída, David ia se misturar ao burburinho das outras crianças ouvintes, com seus carrinhos e chupetas, bolas e cachorros, cujos pais estavam sempre em derredor. Mas, em dado momento, os próprios pais, adultos, muitos católicos apostólicos romanos ou simplesmente ateus, percebiam que o pequeno David usava um processador de voz ao redor da orelhinha. Em ato contínuo, fechavam a cara e tentavam fazer com que seus filhos “ouvintes” fossem brincar somente com outros “ouvintes”. (www.youtube.com/watch?v=JUoVKRTY6dk)

Deficiência oculta é o preconceito. São olhares silenciosos – aqueles que tentam fugir para um horizonte perdido, sem se aperceberem do que está logo ali, em frente. São gestos de seres humanos que batem no peito e dizem “eu respeito os deficientes”. E são estes seres que compram adesivos de cadeirantes ou de surdos em bancas de jornais, colam no  para-brisa do carro e param na vaga de deficientes físicos, apenas para levar a roupa suja na lavanderia de um shopping center e…depois…tomar um gostoso cappuccino na melhor cafeteria de um complexo comercial, enquanto o cadeirante estaciona seu carro adaptado em uma vaga distante, e, de punhos cerrados nas rodas de sua cadeira, tenta chegar vagarosamente na entrada principal do shopping.

Eu mesmo passei por uma experiência que vale relatar. Perdi meu emprego há quase três anos e fiquei longos e eternos 4 meses procurando uma recolocação.  Afinal de contas, com duas filhas para criar, tendo passado por um processo de quimioterapia, com infecções renais, meningite e trombose com embolia pulmonar, eu tinha que me recolocar rapidamente no mercado de trabalho, com apenas a sequela da surdez severa,  mesmo contando com o grande esforço de minha esposa, que sempre trabalhou.

Acessei inúmeros sites e fiz a minha inscrição como deficiente auditivo e usuário de Implante Coclear em dezenas deles. E como não se bastasse o meu grande luto em perder um emprego numa empresa onde fiquei 18 anos, vestindo a camisa e realizando projetos maravilhosos, os recrutadores me chamavam para oferecer vagas de portaria e segurança, atendente bancário ou auxiliar administrativo – eu que tenho diploma, sou fluente na língua inglesa, tenho a língua alemã em nível básico, com ótima redação e com experiência comprovada em Engenharia de Televisão, tendo visitado países como Canadá, Estados Unidos, Inglaterra e Japão, sempre a serviço de minha equipe de trabalho.

Ouvi várias vezes nas entrevistas de recrutamento e seleção que sou uma pessoa diferenciada. Mas se foi assim, porque não me deram uma chance como um profissional habilitado, atualizado e competente? Será que o Implante Coclear incomodaria os ouvintes normais? Será que estas anteninhas que mais parecem raquetinhas de tênis incomodariam o colega ao lado? Ah, já sei: parece que tem a ver com a minha idade, pois tenho 48 anos…

É por isso que respeito muito a empresa onde trabalho atualmente. Depois de duas reuniões com o Diretor-Presidente e com o Gerente Nacional de Vendas, há quase três anos,  eu ouvi: “Bem-vindo à nossa empresa”. Eles me abriram uma grande porta, um ato digno que nenhuma outra empresa ousou em ter. E foi exatamente esta Empresa que conheci durante a minha surdez profunda e  o meu estridente zumbido bilateral, quando participava de Encontros de Implantados no Hospital das Clínicas de São Paulo e perguntava ansiosamente: “mas como é essa história de Implante Coclear?” Mal sabia eu que lá estavam presentes alguns de meus futuros colegas de trabalho, que me aguardavam há muito tempo, para me verem divulgar o Implante Coclear por todo o Brasil.

A Terra gira e o mundo roda. Mas o preconceito continua. E ele é a pior deficiência oculta.

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Os meus benefícios com o Implante Coclear Bilateral

 

 

A minha escolha pelo Implante Coclear Bilateral foi mais difícil do que a própria cirurgia. Eu vinha conversando com a minha família,  com otorrinolaringologistas, fonoaudiólogas, amigos e  também pesquisava diuturnamente na Internet acerca da segunda cirurgia.

Em janeiro de 2006 eu fiz a primeira cirurgia de IC, em meu ouvido esquerdo. Mas qual poderia ser o grande e real benefício em receber a segunda prótese?

Antes de entrar nos benefícios, quero ressaltar que cada usuário de implante coclear é único, tal qual a sua impressão digital. Jamais encontraremos uma similaridade entre os usuários, considerando ainda que há fatores determinantes para o resultado da discriminação sonora, tais como: tempo de privação auditiva, a característica do usuário pré-lingual e do pós-lingual e a causa da surdez (meningite viral ou bacteriana, otosclerose, trauma no ouvido interno, entre outros).

O meu primeiro benefício em relação ao IC bilateral foi aquele relacionado à localização sonora, que vem melhorando a cada mapeamento. A minha fonoaudióloga já integrou através do software, na sessão de mapeamento, os dois lados, com o balanceamento bilateral. Por isso, eu começo a perceber o som estéreo, o que me ajuda a ouvir música de uma forma mais clara e a localizar a direção do som, seja a principal fonte sonora originária da direita ou da esquerda. Exemplo: a famosa campainha do elevador, quando há mais do que quatro deles, num prédio comercial ou residencial. Antes, eu quase “perdia” o elevador, pois estava olhando o meu celular, checando alguma informação e era sempre o elevador da outra ponta do lobby  que chegava primeiro. Talvez a Lei de Murphy – inexorável –  possa explicar este momento diferente e inusitado. Esta facilidade na localização, no dia a dia, faz uma diferença extraordinária. E o que dizer quando alguém  me chama à distância, pelas costas?

Já a discriminação sonora em ambientes muito ruidosos foi o meu segundo benefício.  Sabemos que em restaurantes, à hora das refeições, é tarefa difícil para um usuário de implante coclear entender o que um amigo fala, dificuldade que pode ser observada até mesmo para certos ouvintes “não biônicos”.  A leitura orofacial (LOF) tem que ser feita com muita atenção. Atualmente, continuo a usar a LOF , mas a minha “energia” em tentar compreender o meu interlocutor tem diminuído paulatinamente e eu não me canso como antes para interpretar o que está sendo dito.

O terceiro benefício apontou para a  neutralização da sombra acústica de cabeça. Voltando ao exemplo do restaurante, quando uma pessoa se senta, hoje, ao meu lado direito, é possível compreender melhor o que ela está falando, sem precisar me virar totalmente para o rosto dela, pois o som está sendo, agora,  captado pelo outro lado de minha cabeça, onde, até maio de 2009, não existia o implante coclear e eu só percebia o forte zumbido.

Chegamos agora ao quarto benefício, relacionado ao back up de funcionamento do processador de fala. No exato momento em que uma das baterias esgota a sua carga e o processador de fala desliga, eu tenho o segundo  lado para manter a discriminação em uma conversa, seja ao telefone,  dirigindo o meu carro ou conversando em uma reunião.

O quinto benefício foi em relação à diminuição do zumbido, um fator de grande alegria. Com o primeiro Implante Coclear isto já tinha acontecido. Com o segundo, ele diminuiu consideravelmente. Eu me lembro que, enquanto repousava no quarto do hospital, depois do segundo Implante Coclear, acordei à noite e fiquei imensamente feliz, pois senti que o zumbido deste novo lado também  tinha diminuído, numa escala de valor considerável. Antes dos Implantes, eu classificava o meu zumbido bilateral – numa escala de zero a dez –   com a nota oito. Depois dos Implantes,  o tinittus diminuiu para a nota dois. E quando estou com os dois processadores de fala ligados, eu nem percebo mais o zumbido, pois estou captando o som.

Já brinquei com um médico otorrinolaringologista, quando eu disse: “Se eu tivesse três cócleas, faria três implantes cocleares”! E já pensaram: um som em estéreo 5.1  dolby surround?

Entretanto, eu continuo batendo naquela teclinha importante: a importância da sequência dos mapeamentos, dos ajustes, dos testes e de novos mapeamentos, novos ajustes, novos testes, pois o Implante Coclear, para mim,  constitui-se em 10%  hardware e 90%  software.

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